quinta-feira, 26 de março de 2015

QUILOMBOLA Nº1 - 2015 - Mobilidade Urbana: A solução vem da luta, não por decreto.

Mobilidade Urbana: A solução vem da luta, não por decreto.




    Pensar num projeto de mobilidade urbana para cidade tem que ser fruto dos interesses da população usuária e dos trabalhadores de transportes urbanos. Quem usa o transporte e quem trabalha nele tem melhores condições de identificarem os maiores problemas e podem apontar para soluções que apontem para uma saída coletiva e que promova o bem estar da cidade como um todo. 

    A câmara de vereadores de Maceió aprovou em dezembro de 2014 uma lei que pretendia reduzir o tempo de espera entre as viagens de ônibus em 20 min. Algo que a primeira vista parece um boa para a maioria da população, porém se melhor analisado vai se ver a total ineficácia de sua aplicação. Primeiro porque não é por decreto que se mudará situações como essa. Precisamos pensar a mobilidade dentro da cidade como algo prioritário e que garante o funcionamento de várias outras atividades. Para isso tínhamos que pensar a cidade para a maioria da população e não para apenas alguns poucos. Privilegiar o transporte público e valorizar o trabalhador que trabalha nele. 
    
    Se a cidade tivesse o transporte público como prioritário e não o individual não teríamos tantos engarrafamentos, nem tanta poluição, por exemplo. Temos que pensar as vias públicas de outra maneira e num transporte que possa fazer o deslocamento da população com segurança, conforto e agilidade.

    Diminuir a tempo entre as viagens sem dá a condição para isso pode prejudicar e muito a situação de desgaste e estresse vivenciada pelos rodoviários, sem atingir o objetivo desejado. Essa categoria precisa ser mais bem valorizada, tendo tempo de descanso respeitado para que possa transportar a população em segurança.

    Precisamos de mais transportes públicos, mas com vias que permitam seu trânsito com agilidade. A cidade tem que ser para quem mora nela e não para quem lucra com ela.

    As empresas de ônibus financiam muitas campanhas de vários políticos, que tem que prestar conta a elas depois que são eleitos. Não podemos esperar que a solução venha da boa vontade deles. Somente a organização dos debaixo (a maioria de quem vive na cidade) pode ter força suficiente para lutar por uma melhor política de mobilidade urbana.

    O transporte dos habitantes da cidade deveria ser um bem público e não um negócio lucrativo para aqueles que não sofrem nenhum problema de ordem econômica. Os empresários repassam todos os seus gastos para a população com sucessivos aumentos de tarifa, desproporcional ao aumento dos salários da população trabalhadora. Tão pouco os rodoviários são beneficiados. Porque não conseguem nem o mínimo reivindicado em reajuste salarial, muitas vezes tendo sua direção de sindicato negociando aumento menores do que o desejado pela categoria.

    Para onde então vai a grande arrecadação que se tem com tarifas de ônibus? Viram lucro dos empresários.

   Lutar por uma outra lógica de transporte urbano é uma luta difícil que não passa por fazer “acordões” com políticos e empresários. Somente com muita mobilização da população usuária em unidade com os trabalhadores de transporte urbano teremos força para conseguirmos avançar na disputa da cidade.

sexta-feira, 20 de março de 2015

QUILOMBOLA Nº1 - 2015 - Ocupar ruas e praças, pelo direito à cidade

 

Ocupar ruas e praças, pelo direito à cidade





     Desde que os seres humanos desenvolveram a habilidade de caminhar sobre duas pernas iniciaram um processo de exploração e ocupação de novos territórios. Seja para fins de alimentação ou abrigo, a ideia de que nós poderíamos ir aonde nossas pernas permitisse já existia – mesmo que inconscientemente. E a partir disso nos foi possível adequar a natureza às nossas necessidades e desenvolver meios de socialização para além do uso da terra para o trabalho; surgem então as práticas de lazer – jogos, corridas, etc.

    Percebemos, então, que desde os primórdios – e isso foi se refinando com o desenvolvimento intelectual – os humanos buscavam exercer seu direito de ir e vir e usar a terra para diversos fins. No entanto, na mesma medida em que se buscava usar a terra livremente, existiam outros que quiseram – e tiveram esse poder – de usar a terra como propriedade privada.

     Desse modo, a terra possuía um dono, que restringia seu uso e ocupação por quem necessitava. De outras maneiras isso se mantém atualmente nos espaços urbanos em que vivemos. O direito à cidade é o direito de ocupar os espaços da rua, da praça, do bairro, etc... O geógrafo urbano David Harvey afirma que o direito à cidade é um direito “inalienável”, ou seja, um direito do qual não podemos abrir mão e é entendido como essencial para se garantir o pleno acesso à cidade e à efetivação de outros direitos, como saúde, educação, cultura, etc. Para isso, considera-se essencial democratizar os espaços de lazer. Exercer o direito à cidade significa assumir a nossa responsabilidade no processo de produção e de transformação da cidade. Discutir mobilidade urbana e direito à cidade significa problematizar a realidade de injustiça, opressão, agressão e exclusão que permeia o cotidiano das cidades e seleciona de forma hierarquizada (e elitista) os que podem ou não desfrutar e exercer efetivamente o direito à cidade. Significa discutir sobre que tipo de cidade queremos: uma cidade projetada na escala humana ou na escala do capital? Os bairros nobres são atendidos por toda a sorte de serviços, escolas, quadras poliesportivas, hospitais, uma infinidade de locais para o lazer e a prática de esportes, enquanto que na periferia a realidade é outra, completamente oposta, em que mal existe sistema sanitário, com as ruas tornando-se lama quando chove e a principal prioridade é o posto policial para “garantir a segurança”. Na periferia quem garante os espaços de lazer é a própria comunidade, transformando um terreno abandonado em campinho de futebol ou utilizando uma rua pouco movimentada para dar um “rolé” de skate. Mas se uma determinada área periférica desperta o interesse das elites, elas logo se encarregam de toma-las para si, como foi o caso da desocupação do pinheirinho em São Paulo e como está sendo na questão da vila dos pescadores de Jaraguá.

     Há no debate de direito à cidade um pano de fundo também para a discussão do que diz respeito à mobilidade urbana, o direito de se deslocar pela cidade e acessar aos diversos serviços que ela oferece. E dentro desse debate encontramos também a desigualdade social como ponto central para a discussão. É necessário se deslocar à escola, ao centro de saúde, ao cinema, ao local de trabalho, etc. O debate sobre a mobilidade urbana versa, dessa forma, sobre a garantia de condições necessárias à utilização dos serviços, como também sobre os obstáculos a essa utilização. Os altos preços da tarifa de ônibus, a falta de estrutura para meios de transporte alternativos, como as ciclovias, são obstáculos à utilização dos serviços acima referidos.

     Aqui mesmo na zona sul é possível encontrar um exemplo latente de restrição ao direito a cidade: é o caso dos que andam de skate, esporte bem tradicional por aqui; todos os dias basta percorrer as ruas e as praças do bairro do Vergel do Lago e adjacências para encontrar com a galera praticando o esporte, não porque há incentivo para a prática, pelo contrário, a estrutura é zero, mas porque a rapaziada se organiza e improvisa os obstáculos. Bem diferente da realidade dos bairros nobres da cidade que contam com pistas bem estruturadas – dos quatro principais locais para a prática do esporte, três estão localizados em bairros nobres e apenas um na periferia, que é o caso da rampa do Biu –, ou seja, como dito anteriormente os bairros nobres são atendidos por toda a sorte de serviços. Aqui na zona sul o pessoal teve que lutar para conseguir fechar uma rua à noite para poder praticar o esporte.

Família PST, que marca presença forte nas praças da Zona Sul

     “Infelizmente aqui em Maceió nosso esporte não é tão valorizado. Os melhores locais para os rolês são na pista da Pajuçara e na praça do skate e até mesmo lá existem vários buracos na pista e poucos obstáculos, dificultando o rolê da galera e a evolução”. É o que afirma Samuel Rodrigues, morador da Zona Sul e praticante do esporte. Afirma ainda que a prefeitura, através da secretaria de esporte, decretou a praça do Rui Palmeira como sendo praça do esporte e do lazer mas só o que encontramos ao ir a praça são duas placas da prefeitura que servem apenas para sinalizar que a rua está fechada. “O bob é um cara da região que tem uma loja de skate e vem fazendo muito pelo esporte, foi ele quem, praticamente, ressuscitou o esporte na Zona Sul, sempre nos reunimos para fazer obstáculos novos, inclusive fizemos uma pequena pista próximo ao milénio onde praticamos contemplados pela Lagoa Mundaú’’, completa ele. Ou seja, se não fosse pela iniciativa da comunidade a prática do skate na Zona Sul seria praticamente nula.

Rolê na praça dos pobres

     O movimento do skate tem um grande histórico de lutas e resistência na busca pelo direito à cidade, já que o esporte enfrentou diversas proibições e por conta disso ainda hoje é taxado como um esporte marginal. Ao longo de sua história o skate se tornou, sem dúvidas, o esporte mais urbano que existe. Nas ruas, os skatistas fazem suas próprias rampas e ocupam as cidades usando-as como um grande skate Park. O mais urbano dos esportes aproximou-se de outra cultura igualmente urbana, o Hip-Hop, com presença forte também aqui na zona sul, aglutinando suas formas de expressão como a arte, a música e a moda, tornando-se uma cultura híbrida e sólida. Os skatistas não praticam somente um esporte, são adeptos a um estilo de vida. A história está ai para nos mostrar que a única forma de conquistar o direito de acesso a cidade é nos organizando e lutando juntos por tais direitos. Essa luta deve ser organizada e protagonizada por nós mesmos, seja na nossa comunidade, na escola ou até mesmo no local de trabalho, pressionando as elites através das diversas formas de mobilização que temos em mãos, partindo das lutas mais locais e imediatas, como a luta por uma praça do Skate aqui na Zona Sul e evoluindo para lutas e conquistas mais amplas, como a mobilidade urbana e o direito a cidade, caso contrário ficarmos a mercê de políticos que surgem de dois em dois anos com suas promessas, pois sabemos bem de que lado eles estão nessa disputa por direitos.



sábado, 8 de novembro de 2014

Resistencia Popular convida - Consciência Negra!



Há mais de 400 anos surge onde hoje são terras alagoanas a maior resistência à opressão que já existiu no nosso país. O Quilombo dos Palmares persistiu por quase 100 anos numa experiência que envolvia os negros que tinham sido escravizados na África, mas que conseguiram escapar de seus opressores e fundar um polo de resistência baseado em princípios libertários. Sua experiência deve nos inspirar a reorganizarmos a luta do povo oprimido de um estado tão sofrido como Alagoas. Contra séculos opressão, dos Senhores de Engenho aos Usineiros, temos que reconstruir Palmares. 
A Resistência Popular de Alagoas convida à todos para sua atividade do dia da Consciência Negra.


Viva a Zumbi!
Viva a Dandara!
Viva ao Quilombo dos Palmares!








segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ABAIXO A FARSA DO PNE! - POR UMA EDUCAÇÃO LIBERTADORA, FEITA PELO POVO E PARA O POVO!


  Acompanhamos no início deste ano a reformulação e atualização do plano plurianual denominado Plano Nacional de Educação. Este plano que, visa apresentar metas e propostas de melhoria para a educação em todos seus níveis e modalidades, apresenta um discurso de “democracia participativa” do qual o governo do PT se utiliza para camuflar e mascarar suas ações neoliberais, com um cunho dito “popular”.
          
  Infelizmente alguns movimentos sociais, muitos com ligações estreitas ao governo federal apoiam o PNE e sua participação no processo deu uma maquiagem mais democrática, mas na verdade o projeto se alinha as políticas orientadas pelos organismos financeiros internacionais e sua concepção e finalidade está longe de ter um caráter popular positivo.  
          
  Além disso, o PNE é forjado desde a década de 1990, quando surgiu a ideia de organização do primeiro documento, pelas ideias-força de organismos internacionais como o Banco Mundial, ONU e Unicef, que visam uma educação tecnicista, neoliberal e de preparação estrita para o mercado de trabalho.
           
 O PNE atual está repleto de manobras que estes organismos internacionais e agências multilaterais construíram a favor de benefícios estatais e financeiros. Além disso, ele quebra todas as estruturas políticas que a própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação-LDB, exibe em seu documento, se afastando da oferta de uma educação pública e de qualidade. Isto se dá devido ao grande incentivo a iniciativa privada em ofertar a educação, principalmente através de cursos técnicos no Ensino Médio, e total desvalorização ao Ensino Superior público.
            
Portanto, a Resistência Popular se coloca em uma posição contra hegemônica a estas políticas destrutivas para a educação brasileira, onde seu real interesse é a produção de mão de obra para o mercado, e, o distanciamento da formação humana com base na solidariedade, autonomia, criticidade, laicidade e coletividade, bases estas que são essenciais para a construção de uma educação libertadora e transformadora.

Resistência Popular - Alagoas




terça-feira, 2 de setembro de 2014

Uma nova constituinte não responde a nossas urgências.

O PROBLEMA DO ATUAL PLEBISCITO 


Desde as grandes mobilizações populares de junho de 2013, passando pelas greves de 2014, algo de novo, no passado recente do Brasil, nos foi colocado: a grande insatisfação da maioria da população contra as instituições que controlam nossas vidas e as diversas maneiras de lutar contra o estado de coisas que nos aprisiona, seja no nosso trabalho, no nosso estudo, no bairro que moramos, etc. De fato, a maior parcela da população atem-se às formas mais imediatas de demonstrar essa indignação, mas tivemos greves históricas com ganhos reais ou parciais  conduzida, em boa parte das vezes, pelos trabalhadores, à revelia das direções sindicais. Isso mostra que fazer movimento sindical também é possível, mesmo com sindicatos aparelhados por grupos políticos que os fazem girar em torno de seus próprios interesses e/ou atrelados a patrões.
Como dissemos, foram colocadas em cheque as formas antigas de se fazer política, principalmente as políticas institucionais. O desinteresse dos brasileiros pelas eleições para cargo legislativo e executivo é grande. Transformar a revolta em ação de mudança, na luta pela defesa e ampliação de direitos, bem como na construção do poder popular, não é fácil. A maioria não passou da situação de conforto da crítica, mas não foram poucos os que fizeram greves, como as dos Garis e Rodoviários.
Acreditamos que as mudanças tão sonhadas, aquelas balizadas pela igualdade e liberdade, virão na medida em que o conjunto dos oprimidos se fizer protagonista, e, organizado, lutar com ação direta e na construção do Poder Popular.
Uma parcela dos movimentos sociais atualmente está organizando um plebiscito nacional por uma nova constituinte. No nosso passado recente, vários foram os plebiscitos puxados por movimentos sociais, como o contra a ALCA, pelo não pagamento da Dívida Externa, entre outros. Esses foram importantes instrumentos, pelo menos em potencial, de pressão, propaganda e possibilidade de ampliação de diálogo com o restante da população. Não foram plebiscitos oficiais, por isso, seus resultados não foram oficialmente aceitos, mas promoveram importantes debates.
Um plebiscito oficial, sendo apenas consultivo, não garante poder de mudança nenhum na mão do povo. Um plebiscito oficial, com capacidade direta de decisão da população, pode trazer decisões importantes, mas mesmo assim não seriam decisões centrais. O Estado tem uma estrutura forjada para garantir que as estruturas de domínio continuem privilegiando uma minoria opressora. Mudanças que colocassem em cheque essa situação não poderiam ser promovidas pelo próprio Estado.  
O problema do atual plebiscito proposto por vários movimentos sociais não é seu formato, que já foi utilizado outras vezes, como falamos. O problema desse plebiscito está na forma como ele propôs o diálogo com a população que se revoltou em junho de 2013. Se a revolta da população é contra as instituições (governos, parlamentares de maneira em geral, judiciário, polícias, grandes empresas, etc.), não acreditamos que chamando essa população para uma nova constituinte se resolveria o problema. Depois de tanto esperar para vermos um espírito de revolta nascer em grandes parcelas da população, não dá para queremos conduzir esse espírito de revolta para uma saída institucional.
Querer uma constituinte é apostar numa saída que pode adestrar parte da população para o diálogo com seus algozes: governos e patrões. Vemos as greves espontâneas deste ano como o tipo de saída que apostamos. Educar o povo na revolta, construir protagonistas na ação direta é o que precisamos. Parar a luta para fazer uma constituinte nos conduz a velhas fórmulas que não apontaram saídas para o povo oprimido. Se temos direitos garantidos em lei, foi devido a muita luta de gerações anteriores. Se quisermos acumular mais vitórias e construir o Poder Popular necessário para transformação social almejada, continuemos na luta. 


sábado, 30 de agosto de 2014

Debate A outra campanha - Pela força das RUAS, lutar e vencer FORA DAS URNAS!


No dia 11 de setembro, a partir das 19h, estaremos debatendo a construção do poder popular pela força das ruas, para além das eleições. A atividade será realizada no Hall do CEDU/UFAL (em frente a lanchonete),


A Outra Campanha é uma articulação aberta aos grupos, movimentos e companheiros interessados em construir uma outra forma de fazer política, com base no protagonismo e na luta popular. É na luta que se cria o poder popular, que fazemos valer nossos direitos e arrancamos das elites políticas e econômicas as conquistas. A Outra Campanha Brasil é inspirada em La Otra Campaña organizada pelos zapatistas e espalhada pelo mundo.








segunda-feira, 11 de agosto de 2014

NOTA DE SOLIDARIEDADE DA RESISTÊNCIA POPULAR DE ALAGOAS AOS MORADORES DA VILA DE PESCADORES DO BAIRRO DE JARAGUÁ

Foto: Nando Magalhães


“Vila dos pescadores de Jaraguá: exemplo de protagonismo do poder popular na luta por local de moradia”


Nos últimos dias uma grande mobilização em Maceió tem ocorrido: trata-se da luta dos moradores da vila de pescadores de Jaraguá para não serem transferidos pela prefeitura de Maceió para prédios construídos no bairro do Sobral.

Entretanto, esta luta não é de hoje. Há mais de uma década esses moradores – que fazem parte da própria história de urbanização de Maceió – vem progressivamente sendo expulsos de seus lares. Desde 2001 essa comunidade vem sofrendo, gradativamente, uma desligitimação de suas reivindicações e direitos, pelo favorecimento econômico de uma elite maceioense que busca lucrar através de um projeto de “urbanização” do bairro, em que se resume à construção de uma marina.

Apesar das inúmeras investidas da prefeitura, seja pela “transferência” de alguns moradores para bairros como Benedito Bentes/ Carminha, ofensas públicas aos moradores (chamando-os de “vagabundos e traficantes”), a construção de um estacionamento que é subutilizado, a desmoralização à sua historicidade e relevância cultural para Maceió e um possível enfrentamento com a polícia para que desocupem o local, a vila dos pescadores de Jaraguá resiste e luta, pois compreendem que é só através de seu protagonismo, pelas suas próprias mobilizações é que será possível obter moradia e trabalho dignos, além do respeito pela sua história.

Diante disso, a Resistência Popular de Alagoas, vem através desta nota, prestar toda solidariedade à luta dos moradores da Vila de Pescadores de Jaraguá, por compreendermos que a luta por uma moradia, e moradia com condições dignas é um direito básico e que é só através do protagonismo popular que esses direitos são conquistados.

LUTAR, CRIAR PODER POPULAR!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

GARIS E RODOVIÁRIOS ENSINAM: PROTAGONISMO E AÇÃO DIRETA ARRANCAM CONQUISTAS




No primeiro semestre de 2014 a luta de diversas categoriais de trabalhadores ganharem as ruas para o desespero de patrões e governos que contaram com o trabalho da grande mídia em tentar criminalizar e desencorajar os lutadores. Criminalizar o protesto, assim como feito no contexto da Copa do Mundo (antes, durante e após) em que os noticiários buscam legitimar as ações do Estado e seus governos nas perseguições e prisões, à revelia de qualquer procedimento democrático, de diversos manifestantes. 

Porém, sob o olhar da luta sindical, queremos aqui fazer menção neste texto à luta realizada pelas categorias dos rodoviários em várias cidades (ente elas São Paulo e Porto Alegre) e dos garis do Rio de Janeiro, esses últimos fazendo uma greve histórica em pleno Carnaval carioca. 

As lutas destes trabalhadores tiveram algo em comum que, de certa maneira, tem sido bastante raro no sindicalismo brasileiro, mais ainda considerando a proporção que tomaram. Foram greves construídas nos locais de trabalho, independente das direções sindicais – por vezes tendo até mesmo que enfrentá-las. Conquistaram vitórias totais ou parciais onde antigos diretores sindicais, muitos deles ligados à governos e patrões, diziam não ser possível conquistar. Esses movimentos inspiraram diversos outros, em menores proporções e nem sempre com o mesmo grau de avanço visto por eles, mas com uma importância enorme na tentativa de renovar a maneira de se fazer luta sindical no Brasil. 

Luta não se faz sem transtorno. Direitos não se conquistam sem enfrentamento. Por isso, se faz necessário também fortalecer os laços de solidariedade de classe, de povo oprimido que somos, enxergando na luta do próximo a nossa própria luta. As categorias enfrentam cada vez mais a ação do Estado em querer tornar o direito de greve como um ato ilegal, em que este utiliza os órgãos de “justiça” para acabar autoritariamente, na base da ameaça e intimidação, com as greves. As demissões também têm sido um método  recorrente, a exemplo dos metroviários em São Paulo e de trabalhadores do IBGE. Que o ataque a um, seja o ataque a todos.

Protestar e lutar por direitos não é um crime. É uma necessidade. Crime é a miséria, é a opressão cotidiana em que os trabalhadores são submetidos. Precisamos de mais pessoas nas ruas, precisamos de mais lutas nos locais de trabalho, no bairro em que moramos e na escola em que estudamos. São espaços de convivência em que nos reconhecemos enquanto povo, que identificamos nossos problemas e que podemos buscar a solução para eles. 

Os rodoviários e os garis ensinaram aos demais trabalhadores brasileiros de que não podemos ficar esperando que lutem por nós, nem que devemos nos intimidar com os “podres poderes”. Tomar o protagonismo de nossas lutas é fundamental. Os sindicatos são instrumentos importantes que podem potencializar a luta sindical, mas muitos deles encontram-se
 engessados, de maneira que o sindicato deixa de ser um meio de luta para se transformar em meio de vida daqueles que se encastelam em sua estrutura e se distanciam da realidade dos trabalhadores que dizem representar. 

É pelo acumulo das nossas forças, pelo nosso poder de mobilização, que podemos enfrentar inclusive as injustas decisões judiciais, aquelas que se põe a serviço de governos e patrões. É pela nossa força coletiva também que podemos alçar as vitórias que almejamos. Que não percamos nossos desejos por mudanças e que cada luta, cada piquete, cada greve, com suas vitórias e derrotas, possa fortalecer a ideia de que um novo mundo é possível.


A GREVE DA EDUCAÇÃO EM ARAPIRACA...

Essa greve teve duas fases: no dia 18 de março paralisaram as atividades, voltando no dia 24 após a justiça (pra variar) acusar que era ilegal e sujeita a multa de 10.000 POR DIA. No dia 28/05 tivemos a assembleia que definiu greve novamente com o sindicato pressionado a apoiar a decisão. 

O mês de abril seria data-base para o aumento salarial de 8,5% (recurso proveniente do FUNDEB), mas ainda assim a prefeitura alegou não ter dinheiro para pagar (!). Então, alguns servidores se organizaram em comissão, visitando as escolas e apuraram outras irregularidades, como os diversos problemas estruturais que todos conhecem,mas parece que se naturaliza no cotidiano.

Antes mesmo desta paralisação, a secretaria de educação do município entregou ao SINTEAL um documento referente à greve anterior. Este afirmava que seria cortado o salário dos educadores que aderiram àquela greve. Isso gerou muita confusão, mas não desarticulou totalmente o movimento. Como acordado na assembleia, a greve finalizou terça, dia 10. Após o primeiro ato público, dia 05/06, foi combinado de irmos terça à noite, para a câmara de vereadores. 

Durante a tribuna, os vereadores se mostraram omissos frente às denuncias. Alegaram terem ido às escolas e apurarem o contrário! Prometeram que em junho (durante recesso) a merenda voltaria ao normal e disseram que 10 escolas entrariam em reforma sem nem dizer quais. Dia 16 teríamos outra reunião, que acabou ocorrendo no dia 30, após a negociação com a justiça e a prefeitura, a respeito da legalidade da greve e das reivindicações.

Em audiência com as partes, a greve foi “reconhecida” como legal, entretanto, o sindicato aceitou uma proposta da prefeitura, sem encaminhar as exigências dos servidores. O acordo, que já foi firmado, dizia respeito à redução de hora-atividade dos professores da educação infantil, mas sem resolver a questão do aumento salarial para todos os servidores, mesmo sabendo-se que a verba do FUNDEB já foi repassada ao município. Nada também foi firma sobre as péssimas condições estruturais das escolas.

O Sinteal tem uma relação no mínimo contraditória com os trabalhadores, agindo por vezes de forma antidemocrática. Nos cargos de direção, há pessoas que são muito próximas dos gestores municipais e assumem uma postura pró-gestão dentro do movimento, dificultando a resolução dos problemas enfrentados pelos servidores. De representantes da categoria, viram representantes da prefeitura dentro do próprio movimento dos trabalhadores da educação do município. 


GOVERNO FEDERAL IGNOROU GREVE DE TÉCNICOS E DOCENTES

Trabalhadores da base do Sinasefe, técnicos e docentes da rede federal de educação básica e profissional, estiveram em greve nacional por 81 dias, entre os meses de abril e julho. Neste período, não houve negociação efetiva do governo, que no máximo fez algumas reuniões sem apresentar propostas para as reivindicações dos servidores. Trabalhadores da Fasubra, que representa os técnicos das universidades, ficaram também na mesma, sendo que estes firmaram movimento paredista ainda em março. 

O final da greve foi mais um capítulo da judicialização das lutas, fenômeno que só enfraquece a autonomia dos trabalhadores e que as direções sindicais não tem sabido enfrentar (ou não faz parte de suas concepções). O STJ decretou a greve ilegal, sendo que o mesmo, dias após, também mandou o governo negociar com os trabalhadores. 

No fim, ganha o governo e gestores que conseguem o que queriam, ou seja, a desarticulação e fim da greve, e ganham também as direções sindi cais e suas concepções pragmáticas, apresentando como “vitória” mais um ano de formação de GT´s (Grupos de Trabalho) para discutir as antigas pautas e reivindicações dos trabalhadores. Mais um ano de enrolação?





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Apenas pela ação direta popular fazemos a diferença!


A população do Clima Bom enfrenta vários problemas com a precarização do serviço de saúde no bairro. A Unidade de Saúde de referência, Dr. Djalma Loureiro, vem sofrendo sérios problemas em sua estrutura física, bem como a falta de vários profissionais de saúde. A prefeitura está transferindo trabalhadores de lugar, deslocando profissionais que trabalham no local há mais de 10 anos e já criaram uma referência na comunidade. Em resposta, a comunidade aliada aos próprios trabalhadores da Unidade vem organizando uma série de mobilizações para pressionar a Secretaria de Saúde de Maceió a dar solução ao problema. Uma bela demonstração de ação direta popular. Todo apoio a essa luta, na qual a Resistência Popular de Alagoas se fez presente junto com o Fórum em Defesa do SUS, que está organizando apoio às mobilizações.



Junte-se nesta luta, o posto é nosso, o SUS é nosso!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Zona Sul - O que cultivar?


Construção para a visita do Papa, em 1991, passou mais de 20 anos abandonada.
Estrutura poderia ter sido utilizada para incentivar a cultura na beira da lagoa.



Mesmo o pão, um dia foi trigo. Boa parte dos alimentos, para chegar às mesas, precisa de um “terreno”, de um pedaço de terra para ser cultivado. E belas flores ou bons frutos podem ser cultivados mesmo em espaços inesperados. Quantas culturas ou quantos tipos de manifestações culturais diferentes (e divergentes) podem ser encontradas na Zona Sul? Um pouco de atenção, pesquisa e seriedade já são suficientes para perceber o quanto de produção cultural é realizada nestes bairros de Maceió.

Porém, assim como o pão, a cultura popular também precisa de mais do que apenas as mãos daqueles e daquelas que a plantam. Ou seja, a farta produção cultural nessa área já é uma cultura de resistência, tendo em vista a existência (e sobrevivência) mesmo, praticamente, sem incentivo e tendo que, constantemente, “remar contra a correnteza”. Quando falamos em incentivos, não se trata de “mesada para a cultura”, e sim, de direito! Por exemplo, Lei de Incentivo a Cultura, Leis específicas para cultura de periferia e para a periferia (como existe em alguns outros Estados), criação de espaços de cultura e lazer nas periferias etc. Quando, na verdade, o que vemos é justamente o contrário: ausência e abandono – como, por exemplo, o palco construído à margem da Lagoa Mundaú, no Dique Estrada, que poderia ser um espaço constante de apresentações artísticas, lazer e produção de arte.

Quando se trata desse assunto, uma fala bastante repetida é: “o governo faz, mas o povo quebra, estraga”. Deve-se perceber que educação não é apenas um processo formal. Ou seja, educação não é apenas “coisa de colégio”. É um processo que se inicia desde a família até à convivência nas ruas. Compreendendo essa continuidade, compreende-se a necessidade da continuidade de espaços e ações culturais nas periferias. Assim como a educação não se acaba quando o indivíduo acaba o ensino médio (ou superior), não basta a construção de espaços de cultura e lazer; estes também precisam ser contínuos, vivos.

Porém, não é isso que vemos do lado de cá. Enquanto em bairros ‘considerados nobres’, avenidas são fechadas aos domingos para que suas crianças possam brincar com tranquilidade e segurança, nas periferias, nossas crianças perdem os poucos e improvisados espaços de lazer – como ‘o campinho’ na Praça dos Pobres, onde hoje está situado um posto policial. Será que o Estado não poderia comprar ou alugar uma casa para ser instalado esse posto? Tinha que ser justamente num espaço onde a molecada jogava bola? Lembrando também do abandono dos brinquedos que – faz muito tempo – não recebem manutenção (aqueles que ainda existem) seja na Praça do Cruzeiro, na Praça Santa Tereza, o cuscuz da Praça da Faculdade etc...

          
Posto que foi construído no lugar do ‘campinho’
onde as crianças jogavam bola

Pobreza gera violência?

Outra argumentação bastante difundida é em relação à violência – o Vergel é considerado um dos bairros mais violentos da cidade. Será que não pode ser feita nenhuma relação entre tudo que já foi dito neste breve texto (ausência e abandono de espaços de cultura e lazer) com o aumento dos índices de criminalidade, principalmente, envolvendo jovens e crianças nesta região? Criminalização da pobreza e incentivo à cultura do medo além de serem lucrativas para uma minoria, mantem o silêncio da maioria. E silêncio é uma das coisas que os exploradores mais querem.

Como já dito, a Zona Sul de Maceió é uma região de uma farta produção cultural - artesanatos diversos; bumba-meu-boi; música; literatura; grupos de capoeira, de dança, de teatro... Apenas para citar alguns exemplos. Nesta região você pode encontrar jovens dançando break, às margens da Lagoa Mundaú, tendo como plano de fundo um pôr do sol belíssimo, que ilumina às águas onde estão os pescadores, que mais do que peixes, pescam sua sobrevivência e dignidade. Apesar de todas as dificuldades, encontram-se aqui poetas, cordelistas, escritores com livros lançados. Músicos e bandas dos mais diversos matizes musicais e com trabalho divulgado nacionalmente. Os detalhes dos exemplos não caberiam apenas neste texto. Entretanto, qual a imagem que é divulgada dessa região: violência, crime, mortes - uma rápida pesquisa num site de buscas mostrará o contraste.

Mesmo com todo descaso, a comunidade 
continua produzindo cultura de qualidade.
Como o Boi Alegria que é associado ao Núcleo 
Cultural da Zona Sul


Portanto, não é a pobreza que gera a violência, mas a desigualdade, sim. A violência cometida com caneta, por homens que usam terno e gravata, que provoca mortes devido ao desvio de verbas destinadas à saúde pública ou a fome de crianças que encontram na merenda escolar um importante motivo para irem às escolas ou o descaso em relação aos espaços de cultura e lazer nas periferias, que poderiam acolher jovens e crianças de modo bem mais atrativo que o crime, é “menos violência”? E a desigualdade, embora possa ter como o peso maior a economia, não é apenas econômica. A cultura que é produzida em ateliês e oficinas nos “bairros nobres” ou a cultura que é produzida pelos acadêmicos nas universidades é “mais cultura” que as produzidas no chão de terra batida, nos fundos de quintais ou ao ar livre nas praças das periferias?

Agora resta escolhermos o que queremos cultivar.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

VI Mostra da Resistência: CONSCIÊNCIA NEGRA

A Resistência Popular/Alagoas, desde 2008, realiza atividades temáticas em memória ao dia da Consciência Negra (20 de Novembro, data do assassinato de Zumbi dos Palmares) e esse ano não poderia ser diferente. Contaremos com quatro datas: 07, 13, 23 e 30 de novembro. Convidamos todos os interessados a somar-se a esta comemoração, não como festa, mas como memória e luta por novos sonhos de justiça e igualdade, nos apoiando na História do Quilombo da liberdade, Quilombo dos Palmares!

“Palmares é símbolo da resistência de um povo. Hoje a escravidão foi “oficialmente abolida”, mas a grande maioria da população ainda é explorada pela elite dominante. Alguns de forma mais brutal outros de maneiras mais disfarçadas, mas ambos fazendo parte de um mesmo povo.
Alagoas é conhecida como a terra dos pistoleiros, a terra dos taturanas, a terra dos usineiros e um dos últimos redutos dos coronéis. Essa Alagoas é bem conhecida e divulgada na grande mídia, mas a Alagoas que queremos mostrar é a Alagoas da resistência de Palmares e da luta de um povo por sua libertação. Que a lembrança desse grandioso fato histórico inspire nosso povo a fazer como os negros e negras de Palmares. Ultrapassar a humilhação que nos envolve e abraçar a causa de um ideal libertador.”
(Resistência Popular, novembro de 2008)



CASA DA RESISTÊNCIA: COMO CHEGAR?

MAPA
http://goo.gl/maps/P9Cye

É bem simples de chegar, pra quem vem de fora, mas já conhece o bairro é saltar no ponto após a Praça Santa Tereza e entrar na rua em frente ao ponto do Colégio Rui Palmeira.

Pra quem ainda não conhece, passam aqui as linhas:

> No ponto do Rui Palmeira: Pontal-UFAL, Trapiche-UFAL, Mirante-Vergel, Jacarecica-Vergel, Vergel-Jatiúca, Ponta Verde-Vergel (Avenida ou Santo Eduardo), J Leão - Ponta Verde.

> Na rua da sede: Henrique Equelman-Vergel (Passa por trás da principal, descer após a Cabo Reis e voltar até o Mercadinho Omena).

> No ponto da Santa Tereza (e seguir andando até o Rui Palmeira, na mesma rua): Clima Bom-Trapiche, João Sampaio - Trapiche, Pontal-Rodoviária, Cruz das Almas-Trapiche, Circular 2.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Assistência Estudantil


Introdução:

   Para devidamente começarmos a discussão sobre assistência estudantil é preciso que entendamos a educação e os seus méritos como patrimônio de toda a sociedade, somente assim poderemos avançar na nossa empreitada. É, portanto, nessa base que encontraremos as condições necessárias para definir e investigar as condições da assistência estudantil no Brasil, mais especificamente em Alagoas.
Admitindo os pressupostos anteriores sobre o patrimônio social devemos, assim, encaixar a universidade e seu papel dentro desta sociedade. Entende-se, então, a partir da sua natureza, que a universidade tem como principal papel: gerar, sistematizar e socializar o conhecimento e o saber, formando profissionais e “cidadãos” capazes de contribuir para o projeto de uma sociedade justa e igualitária. Sem essa admissão justificaríamos práticas e políticas que serão posteriormente rechaçadas e refutadas, portanto faz-se necessário ter esse papel em mente.

   A universidade, fazendo parte da própria sociedade, também é uma expressão dela abrigando também suas contradições; mas ela se constitui como uma instituição no qual essas contradições devem ser combatidas, dado seu caráter formador e produtor de novos conhecimentos e socializador destes, no qual teoricamente superariam os antagonismos que as assolam.

Tendo isso em vista a redução das desigualdades socioeconômicas faz parte do processo de democratização da universidade e da própria sociedade. Torna-se necessária a criação de mecanismos que valorizem a entrada, permanência e conclusão de cursos dos que optam por nela ingressar, reduzindo assim os efeitos das desigualdades.

* As dificuldades de vida que causam o não prosseguimento dos estudantes na academia, contribuem para evasão e a defasagem.

* A não definição de recursos e políticas para a manutenção de projetos de assistência estudantil que busquem criar condições objetivas de permanência desse segmento da população na universidade faz com que esses “estudantes”, muitas vezes, retardem e até desistam de seus cursos.

   Objetivamente, a sociedade, na nossa concepção, é dividida em classes, consequentemente, enquanto for assim, transpassará a desigualdade por todos os âmbitos sociais. A universidade, se entendida como um direito de todos, reflete essas disparidades e, algumas vezes, a tonifica (com mais tempo exigido dos estudantes, mais produtividade acadêmica, maior convívio com diferenças, etc...), atenuando a situação de quem possui menos poder aquisitivo e não dispõe de recursos (físicos, materiais e intelectuais) para garantir uma boa formação. Em outras palavras a universidade se abre para o estudante, mas se fecha para garantir as condições a qual ele precisaria para se formar, superficialisando a primeira abertura, acarretando em uma série de transtornos. Por isso é tão importante garantir as necessidades básicas para a população
trabalhadora em geral e dos estudantes especificamente, tal como: moradia, alimentação, transportes, apoio acadêmico entre outras.


Leis:

A constituição federal de 1988 consagra a educação como dever do estado e da família e tem como princípio a igualdade de condições de acesso e permanência na escola.

* Artigo 3º LDB (Lei de Diretrizes e Bases): “O ensino deverá ser ministrado com base nos seguintes princípios: 1- Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola” 2- A educação deve englobar os processos formativos e que o ensino será ministrado com base no princípio da vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.

   A garantia por lei não só não garante seu cumprimento como, também, abre espaços para [más] interpretações no que tange a assistência estudantil, o que abre pretextos teóricos para implantação de políticas transvestidas de “assistências” que, no fim das contas, não progridem efetivamente a educação no país. O Reuni é um exemplo claro disso, em seu decreto de abril de 2007 no artigo primeiro diz que esse “tem por objetivo criar condições para a ampliação do acesso e da permanência na educação superior”. E diz mais “o Programa terá as seguintes diretrizes, entre outras, ampliação de políticas de inclusão e de assistência estudantil”. Porém o que se vê na prática é uma inchação na entrada de estudantes nas universidades e poucas (quase nenhuma) melhorias nas condições objetivas que contribuem para a formação destes.

   Os princípios como colocados acima levam-nos a refletir sobre as práticas institucionais levando como norte dois fatores latentes ao falarmos da finalidade de tais leis e programas:

*Dignidade humana.

*Ações transformadoras no desenvolvimento do trabalho social com seus integrantes.


Socialização:

Dando atenção especificamente para o segundo ponto devemos entender a assistência estudantil considerada nos planos para uma melhoria das condições de comprometimento social e de sua transformação. E somente garantindo o conhecimento e estendendo-o para a sociedade/comunidade que permearemos pelas três dimensões do fazer acadêmico (Gerar, Sistematizar e Socializar o conhecimento), viabilizar a relação universidade/comunidade. Para, assim, inseri-la na práxis acadêmica, entendendo-a como um direito social e rompendo com a ideologia tutelar do assistencialismo, da doação, do favor e das concessões do estado.

* A discussão do direito social, no Brasil, acaba prejudicada pela ideologia tutelar que vê a assistência estudantil, ou qualquer outra, como um jogo de favores e doações do estado, que é incorporada até pelas classes mais desfavorecidas, e no nosso caso, pelos estudantes, empobrecendo a finalidade e a importância da assistência para o estudante.

   Para cumprir seu papel social o estudante precisa de livros, equipamentos de aprendizagem prática, acesso à informação, participação em eventos acadêmicos e culturais. Outro aspecto como a inclusão digital, tendo em vista a importância da informática para a facilitação de pesquisas e estudos, se encaixa no quadro assistencial. E somente tendo essas condições será possível que a universidade avance ao terceiro item de sua dimensão, dando assim o valor devido a comunidade na qual ela está inserida, e não vendendo-se ao empresariado que financia pesquisas e cursos para produzir novos conhecimentos que beneficiem o lucro de suas empresas e, consequentemente, a contribuição da exploração da força de trabalho (como a situação de alguns cursos da UFAL que são financiados pela máfia sucroalcooleira produzindo pesquisas que desenvolvam formas de aumentar a lucratividade e esquecendo de toda uma comunidade que vive a mercê da força desses poderosos que controlam o estado de alagoas) afastando assim a universidade da comunidade.

   Por isso a importância de desenvolver o debate claro sobre o papel da universidade e do estudante dentro dela, para que possamos saber bem o que cobrar do poder e para que conheçamos e ganhemos forças para mudarmos nós mesmos o quadro lamentável em que nos encontramos.

Fatores de atuação:

A assistência estudantil perpassa uma série de fatores da vida do estudante, entre eles estão:

* Moradia/Migração: A variável localidade de moradia dos estudantes ao ingressarem na universidade é um importante indicador de qualidade de vida. Milhares de estudantes deslocam-se dos seus locais de moradia e contexto familiar para ingressarem na universidade, necessitando, portanto, do apoio efetivo da universidade. (Denunciamos a total precariedade em que se encontra as residências estudantis; o descaso com os estudantes, muitas vezes vindos de outras cidades, e até estados, demonstra a indiferença do poder para com a situação de suma importância que é a moradia estudantil).


* Alimentação: A importância da alimentação é primária para um bom desempenho acadêmico. É necessário ampliar e manter o apoio à alimentação dos estudantes, otimizando assim o seu tempo de vida acadêmica. (O descaso com a situação do R.U.(restaurante universitário) aparece de cara nas condições dos horários de pico alimentar, sem falar nos altos preços em alguns).


* Manutenção e Trabalho: Muitos estudantes precisam fazer a dupla jornada para se manterem estudando na universidade, e acabam tendo, algumas vezes, que abandonar os estudos, por isso há uma forte tendência dos estudantes de buscarem formas de se manterem dentro da universidade. A baixa oferta de programas acadêmicos remunerados acaba não suprindo essa necessidade e, principalmente com a bolsa trabalho, fazem o papel inverso aumentando a indisponibilidade de tempo dos estudantes inserindo-os em cargos de trabalho que deveriam ser preenchidos por técnicos.


* Meios de Transporte: A locomoção é um fator primordial para a manutenção do esporte na universidade. E, ao contrário do que é propagado, é papel do governo garantir que esse direito se valha. (Os aumentos abusivos das passagens aliados à uma gestão que visa o lucro do empresariado, e não as necessidades da população, tem se configurado como uma prática corriqueira no estado, por isso é preciso entender que o transporte, apesar de ser uma pauta mais universal, também se insere na reinvindicação da assistência estudantil).


* Saúde: O estudante também tem direitos relacionados a saúde (consulta no H.U. entre outros) porém a saúde é um tema muito mais amplo e universal e tem problemas gritantes que assolam toda a sociedade brasileira, milhões de pessoas morrem por ano numa fila de hospital, ou pelo descaso do atendimento e até pela falta de aparatos certos atendimentos. (toda essa constatação transpassa a voluntária precarização que o governo vem fazendo na saúde, se omitindo da gestão e usando desse discurso para implantar uma política de privatização que visariam entregar a saúde, que é um direito, nas mãos do empresariado, como acontece com o projeto EB$ERH).


* Acesso a Biblioteca: É preciso atentarmos para não somente termos uma biblioteca, mas para as condições na qual ela funciona, sua capacidade e horários de funcionamento, e até a ampliação do seu acervo.


* Acesso a cultura, lazer e esporte: É direito também termos programas de acesso e de investimentos em áreas de atuação cultural e social, levando para a comunidade acadêmica uma universidade pulsante e viva, com maior sociabilização.


* Movimento Social: É garantido por lei, também, a liberdade de organização dos estudantes e docentes e sua inserção nas cobranças e tomadas de decisões no que tange suas universidades, e as próprias universidades devem oferecer condições para tal. Portanto ao organizarmo-nos não estamos infligindo nenhum tipo de lei fascista e totalitária que poderia calar-nos.


* Creche: É necessário que as mães e país tenham um lugar seguro para abrigar seus filhos enquanto estudam, muitos deles não possuem condições para deixa-los com outras pessoas e até
pagar uma babá, o que leva também a defasagem e a desistência de muitos, daí a necessidade de uma boa creche, que não só mantenha as crianças mas que as sociabilizem e eduquem também.


* Portadores de Deficiência: Para esse ponto devemos ter um olhar mais minucioso e uma atenção maior. As políticas de inclusão para essa parcela da população não acontece de maneira efetiva, é preciso que haja investimentos em políticas que levem em conta essas diferenças e necessidades, que melhorem a acessibilidade em todos os fatores citados acima. A defasagem dessa parcela da população é muito maior e se veem condenados à uma vida de ostracismo quando não disponibilizam de recursos para se inserir na sociedade.


Conclusão:

Devemos portanto enxergar nosso papel dentro da universidade para que possamos estar criticamente inseridos nos processos de decisões, a importância da nossa organização para a sociedade em geral, e a universidade em particular, é primordial se queremos uma mudança efetiva dos quadros atuais de degradação da educação. Partindo da maior participação da população e de melhores debates sobre os temas abordados devemos nos centrar em como poderemos ter maior controle coletivo para que possamos juntos atenuar o papel da universidade na comunidade, por uma sociedade que deseja superar suas contradições e desigualdades a partir do conhecimento dos seus processos.

domingo, 29 de setembro de 2013

A Outra Campanha 2013: Pela força das ruas


Em 2013 presenciamos uma série de mobilizações sociais surgirem no Brasil exigindo o direito ao transporte público, gratuito e de qualidade . Também é o ano que “A Outra Campanha” completa 5 anos em Maceió, abrindo caminho para discutir nossos direitos sociais para além das campanhas e partidos eleitorais. 

No dia 03 de Outubro a partir das 19h estaremos discutindo a força das ruas como impulsionadora de uma outra política de mobilidade urbana que beneficie o povo e não os empresários. Convidamos todos a não só comparecer como participar desse debate, fortalecendo nossa capacidade de indignação.






COMO CHEGAR?

MAPA
http://goo.gl/maps/P9Cye

É bem simples de chegar, pra quem vem de fora, mas já conhece o bairro é saltar no ponto após a Praça Santa Tereza e entrar na rua em frente ao ponto do Colégio Rui Palmeira.

Pra quem ainda não conhece, passam aqui as linhas:

> No ponto do Rui Palmeira: Pontal-UFAL, Trapiche-UFAL, Mirante-Vergel, Jacarecica-Vergel, Vergel-Jatiúca, Ponta Verde-Vergel (Avenida ou Santo Eduardo), J Leão - Ponta Verde.

> Na rua da sede: Henrique Equelman-Vergel (Passa por trás da principal, descer após a Cabo Reis e voltar até o Mercadinho Omena).

> No ponto da Santa Tereza (e seguir andando até o Rui Palmeira, na mesma rua): Clima Bom-Trapiche, João Sampaio - Trapiche, Pontal-Rodoviária, Cruz das Almas-Trapiche, Circular 2.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Os frutos do Sarau da Resistência

Um mês depois do seu primeiro Sarau, que marcou também a comemoração de seus 5 anos de existência, a  Resistência Popular Alagoas traz alguns frutos desta construção coletiva. 

O relato a seguir foi escrito pelo companheiro Robson Véio, facilitador das oficinas que ocorreram no dia 24 de Agosto e grande entusiasta do Sarau da Resistência:


Sobre o SARAU DA RESISTÊNCIA

No sábado, 24 de agosto de 2013, eu tive a oportunidade de conhecer a sede da Resistencia Popular- Alagoas. Situada no Vergel que é um dos bairros, segundo as estatísticas, mais violentos de Maceió, nada me surpreendeu quando, ao olhar para os lados, pude perceber que não se via as mesmas coisas que inexistem nos bairros de periferia em todo lugar do mundo... Ou seja; tudo o que os bairros nobres têm de sobra.

Mas o que se poderia ver também - e não me foi surpresa - foi uma maioria de pessoas (uma maioria Preta mesmo quando com a pele mais clara) sem um espaço para saciar suas necessidades além do mínimo para se manterem vivas e alimentarem os cofres doutros com sua força de trabalho ou desempregadas sendo usadas como pressão para amedrontar as lutas daquelas que ainda se  mantem em “condição produtiva”.
A sede, que é uma casa com 2 quartos, tem biblioteca, sala de informática (em construção) uma boa área externa e mantém atividades como reuniões, debates, exposição de filmes e documentários, etc...
Eu fui até lá realizar uma oficina de Sarau, oficina esta que foi dividida em vários momentos. De inicio fiz uma apresentação sobre o surgimento dos Saraus na historia, a resignificação/resgate por nós da Periferia, uma oficina para a construção de um Sarau, onde foram apontados alguns aspectos importantes para organização e para que ele possa funcionar de acordo com os objetivos que se almeja, que no nosso caso para além de um espaço de confraternização da poesia é que sirva como uma ferramenta para a construção do Poder Popular.
Foram usadas como material da oficina os vídeos: “Curta Saraus”, “Documentário Sarau Elo da Corrente” e “Sarau do Binho Vive”.
Terminada a oficina, e após um intervalo, junto com a noite nasce o “Sarau da Resistencia”.
Realmente é muito difícil colocar em palavras, sentimentos e ações que acabam tocando de maneira tão forte os nossos corações, afinal como diz Marechal “computador não capta emoção espiritual”. Sentimentos estes que devido as dificuldades diárias os capitalistas dizem que não podemos ter, como sorrir entre os nossos mesmos sem parar por um instante de lutar e com isso nos abastecer  com mais energia para enfrentar a peleja contra quem nos acorrenta.
O “Sarau da Resistência” foi sensacional!

Todas as vozes recitando gritos de revolta, alegria, dor, desejos, libido, bobagens, tristeza, amor pela vida... Negando duplamente as falas que insistem em dizer que a revolução é feita por pessoas carrancudas e que local de diversão não é lugar pra ficar se falando de politica.
Lá estavam, e não só em palavras, as Ocupações dos Sem Teto, que acontecem neste momento em Maceió; estavam os escritores das periferias de todos os cantos com sua literatura que deve ser conhecida por ser feita por pessoas como nós e não por aqueles “artistas encastelados”; estava o pessoal do hiphop, do rock e de todas as músicas; aquelas pessoas que estavam nas ruas de Maceió no enfrentamento contra o capital nas Jornadas de Junho; estavam pessoas curiosas, trabalhadores, desempregados, estudantes... Ou seja, pessoas comuns, aquelas que aprenderam desde há muito tempo, seja no momento da invasão desta terra e no massacre que se iniciou ali, seja no sequestro que sofremos para sermos escravizados ou no holocausto diário nas engrenagens dos dias atuais, que eles não podem roubar a nossa vontade de viver.
Só posso agradecer à Resistencia Popular pelo convite principalmente por fazer parte da comemoração dos seus 5 anos e dizer que o aprendizado que tive nesses dias, não só nas atividades mas nas conversas e afagos, será compartilhado com as pessoas que lutam aqui em Salvador e por onde eu passar.
“Ouçam os gritos... a Luta de Classes ainda não acabou!”

AGRADECE!

Róbson Véio



Abaixo, o Manifesto da Resistência, feito e declamado pelo companheiro Arthur:


MANIFESTO DO SARAU DA RESISTÊNCIA


Companheiras e companheiros, quero lhes dizer que hoje, nesta humilde residência, nascem flores.
Nascem flores, cores, dores e amores em formato de poema.
Estendidos num varal, deslizando pelas bocas ou retido nos pulmões dos mais tímidos, eles vão
brotando da cada cabeça e sendo colhidos por cada coração aberto para recebê-los sem algemas.

Com o vento batendo nos varais, as letras no papel sangrado se vão à revelia tocar os passantes em
 cada esquina dessa periferia.
Com a boca abrindo e fechando no compasso do ritmo cardíaco, a voz vai aos poucos liberando em
pequenas doses essa feitiçaria, que entorpece nossos ouvidos e nos preenche cada parte antes vazia
e nos pulmões dos envergonhados, o ar circula num endo-fluxo infinito junto aos pensamentos
contidos, confabulando em versos mudos os segredos nos olhos escritos.


Companheiros e companheiras, gostaria de lhes revelar  que, nesta humilde residência, moram
sonhos. Moram corações e, principalmente, mora o sangue; da luta e da vida.
Esse mesmo sangue latino e nordestino que corre em suas veias e nas minhas.
E que nos abarca e nos abraça numa irmandade robusta, e que ao mesmo tempo, nos acaricia.

Companheiras e companheiros, a velha quintessência profana da Bahia nos trouxe hoje a

oportunidade de partilhar um pouco de nossas angústias, paixões e alegrias; embriagadas por ritmo
e poesia.
Então vamos! Celebremos não apenas hoje, mas em toda vida! Não apenas agora, mas a todo
instante de cada novo dia!

Companheiros e companheiras, confesso-lhes do fundo das minhas letras nuas e cruas que desejo
que a partir de hoje, se edifique e se fortaleça a resistência a este mundo vil. E vamos reescrevendo-o  conforme a nossa caligrafia.

Companheiras e companheiros, nesta viva resistência se agrupam mentes, corpos e corações que seguem lutando e avançando construindo o poder da periferia.
E juntos, por onde quer que passemos, seja com versos em poesia, com palavras de ordem, com
armas nas mãos, com a bandeira vermelho-negro em punho ou com as canções sobre a revolução e
 a vida em frente aos corações que carregam um novo mundo; que se juntem a nós!

Então lutemos e brindemos, porque agora é a hora e hoje é o dia!
Lutemos!