segunda-feira, 11 de agosto de 2014

NOTA DE SOLIDARIEDADE DA RESISTÊNCIA POPULAR DE ALAGOAS AOS MORADORES DA VILA DE PESCADORES DO BAIRRO DE JARAGUÁ

Foto: Nando Magalhães


“Vila dos pescadores de Jaraguá: exemplo de protagonismo do poder popular na luta por local de moradia”


Nos últimos dias uma grande mobilização em Maceió tem ocorrido: trata-se da luta dos moradores da vila de pescadores de Jaraguá para não serem transferidos pela prefeitura de Maceió para prédios construídos no bairro do Sobral.

Entretanto, esta luta não é de hoje. Há mais de uma década esses moradores – que fazem parte da própria história de urbanização de Maceió – vem progressivamente sendo expulsos de seus lares. Desde 2001 essa comunidade vem sofrendo, gradativamente, uma desligitimação de suas reivindicações e direitos, pelo favorecimento econômico de uma elite maceioense que busca lucrar através de um projeto de “urbanização” do bairro, em que se resume à construção de uma marina.

Apesar das inúmeras investidas da prefeitura, seja pela “transferência” de alguns moradores para bairros como Benedito Bentes/ Carminha, ofensas públicas aos moradores (chamando-os de “vagabundos e traficantes”), a construção de um estacionamento que é subutilizado, a desmoralização à sua historicidade e relevância cultural para Maceió e um possível enfrentamento com a polícia para que desocupem o local, a vila dos pescadores de Jaraguá resiste e luta, pois compreendem que é só através de seu protagonismo, pelas suas próprias mobilizações é que será possível obter moradia e trabalho dignos, além do respeito pela sua história.

Diante disso, a Resistência Popular de Alagoas, vem através desta nota, prestar toda solidariedade à luta dos moradores da Vila de Pescadores de Jaraguá, por compreendermos que a luta por uma moradia, e moradia com condições dignas é um direito básico e que é só através do protagonismo popular que esses direitos são conquistados.

LUTAR, CRIAR PODER POPULAR!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

GARIS E RODOVIÁRIOS ENSINAM: PROTAGONISMO E AÇÃO DIRETA ARRANCAM CONQUISTAS




No primeiro semestre de 2014 a luta de diversas categoriais de trabalhadores ganharem as ruas para o desespero de patrões e governos que contaram com o trabalho da grande mídia em tentar criminalizar e desencorajar os lutadores. Criminalizar o protesto, assim como feito no contexto da Copa do Mundo (antes, durante e após) em que os noticiários buscam legitimar as ações do Estado e seus governos nas perseguições e prisões, à revelia de qualquer procedimento democrático, de diversos manifestantes. 

Porém, sob o olhar da luta sindical, queremos aqui fazer menção neste texto à luta realizada pelas categorias dos rodoviários em várias cidades (ente elas São Paulo e Porto Alegre) e dos garis do Rio de Janeiro, esses últimos fazendo uma greve histórica em pleno Carnaval carioca. 

As lutas destes trabalhadores tiveram algo em comum que, de certa maneira, tem sido bastante raro no sindicalismo brasileiro, mais ainda considerando a proporção que tomaram. Foram greves construídas nos locais de trabalho, independente das direções sindicais – por vezes tendo até mesmo que enfrentá-las. Conquistaram vitórias totais ou parciais onde antigos diretores sindicais, muitos deles ligados à governos e patrões, diziam não ser possível conquistar. Esses movimentos inspiraram diversos outros, em menores proporções e nem sempre com o mesmo grau de avanço visto por eles, mas com uma importância enorme na tentativa de renovar a maneira de se fazer luta sindical no Brasil. 

Luta não se faz sem transtorno. Direitos não se conquistam sem enfrentamento. Por isso, se faz necessário também fortalecer os laços de solidariedade de classe, de povo oprimido que somos, enxergando na luta do próximo a nossa própria luta. As categorias enfrentam cada vez mais a ação do Estado em querer tornar o direito de greve como um ato ilegal, em que este utiliza os órgãos de “justiça” para acabar autoritariamente, na base da ameaça e intimidação, com as greves. As demissões também têm sido um método  recorrente, a exemplo dos metroviários em São Paulo e de trabalhadores do IBGE. Que o ataque a um, seja o ataque a todos.

Protestar e lutar por direitos não é um crime. É uma necessidade. Crime é a miséria, é a opressão cotidiana em que os trabalhadores são submetidos. Precisamos de mais pessoas nas ruas, precisamos de mais lutas nos locais de trabalho, no bairro em que moramos e na escola em que estudamos. São espaços de convivência em que nos reconhecemos enquanto povo, que identificamos nossos problemas e que podemos buscar a solução para eles. 

Os rodoviários e os garis ensinaram aos demais trabalhadores brasileiros de que não podemos ficar esperando que lutem por nós, nem que devemos nos intimidar com os “podres poderes”. Tomar o protagonismo de nossas lutas é fundamental. Os sindicatos são instrumentos importantes que podem potencializar a luta sindical, mas muitos deles encontram-se
 engessados, de maneira que o sindicato deixa de ser um meio de luta para se transformar em meio de vida daqueles que se encastelam em sua estrutura e se distanciam da realidade dos trabalhadores que dizem representar. 

É pelo acumulo das nossas forças, pelo nosso poder de mobilização, que podemos enfrentar inclusive as injustas decisões judiciais, aquelas que se põe a serviço de governos e patrões. É pela nossa força coletiva também que podemos alçar as vitórias que almejamos. Que não percamos nossos desejos por mudanças e que cada luta, cada piquete, cada greve, com suas vitórias e derrotas, possa fortalecer a ideia de que um novo mundo é possível.


A GREVE DA EDUCAÇÃO EM ARAPIRACA...

Essa greve teve duas fases: no dia 18 de março paralisaram as atividades, voltando no dia 24 após a justiça (pra variar) acusar que era ilegal e sujeita a multa de 10.000 POR DIA. No dia 28/05 tivemos a assembleia que definiu greve novamente com o sindicato pressionado a apoiar a decisão. 

O mês de abril seria data-base para o aumento salarial de 8,5% (recurso proveniente do FUNDEB), mas ainda assim a prefeitura alegou não ter dinheiro para pagar (!). Então, alguns servidores se organizaram em comissão, visitando as escolas e apuraram outras irregularidades, como os diversos problemas estruturais que todos conhecem,mas parece que se naturaliza no cotidiano.

Antes mesmo desta paralisação, a secretaria de educação do município entregou ao SINTEAL um documento referente à greve anterior. Este afirmava que seria cortado o salário dos educadores que aderiram àquela greve. Isso gerou muita confusão, mas não desarticulou totalmente o movimento. Como acordado na assembleia, a greve finalizou terça, dia 10. Após o primeiro ato público, dia 05/06, foi combinado de irmos terça à noite, para a câmara de vereadores. 

Durante a tribuna, os vereadores se mostraram omissos frente às denuncias. Alegaram terem ido às escolas e apurarem o contrário! Prometeram que em junho (durante recesso) a merenda voltaria ao normal e disseram que 10 escolas entrariam em reforma sem nem dizer quais. Dia 16 teríamos outra reunião, que acabou ocorrendo no dia 30, após a negociação com a justiça e a prefeitura, a respeito da legalidade da greve e das reivindicações.

Em audiência com as partes, a greve foi “reconhecida” como legal, entretanto, o sindicato aceitou uma proposta da prefeitura, sem encaminhar as exigências dos servidores. O acordo, que já foi firmado, dizia respeito à redução de hora-atividade dos professores da educação infantil, mas sem resolver a questão do aumento salarial para todos os servidores, mesmo sabendo-se que a verba do FUNDEB já foi repassada ao município. Nada também foi firma sobre as péssimas condições estruturais das escolas.

O Sinteal tem uma relação no mínimo contraditória com os trabalhadores, agindo por vezes de forma antidemocrática. Nos cargos de direção, há pessoas que são muito próximas dos gestores municipais e assumem uma postura pró-gestão dentro do movimento, dificultando a resolução dos problemas enfrentados pelos servidores. De representantes da categoria, viram representantes da prefeitura dentro do próprio movimento dos trabalhadores da educação do município. 


GOVERNO FEDERAL IGNOROU GREVE DE TÉCNICOS E DOCENTES

Trabalhadores da base do Sinasefe, técnicos e docentes da rede federal de educação básica e profissional, estiveram em greve nacional por 81 dias, entre os meses de abril e julho. Neste período, não houve negociação efetiva do governo, que no máximo fez algumas reuniões sem apresentar propostas para as reivindicações dos servidores. Trabalhadores da Fasubra, que representa os técnicos das universidades, ficaram também na mesma, sendo que estes firmaram movimento paredista ainda em março. 

O final da greve foi mais um capítulo da judicialização das lutas, fenômeno que só enfraquece a autonomia dos trabalhadores e que as direções sindicais não tem sabido enfrentar (ou não faz parte de suas concepções). O STJ decretou a greve ilegal, sendo que o mesmo, dias após, também mandou o governo negociar com os trabalhadores. 

No fim, ganha o governo e gestores que conseguem o que queriam, ou seja, a desarticulação e fim da greve, e ganham também as direções sindi cais e suas concepções pragmáticas, apresentando como “vitória” mais um ano de formação de GT´s (Grupos de Trabalho) para discutir as antigas pautas e reivindicações dos trabalhadores. Mais um ano de enrolação?





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Apenas pela ação direta popular fazemos a diferença!


A população do Clima Bom enfrenta vários problemas com a precarização do serviço de saúde no bairro. A Unidade de Saúde de referência, Dr. Djalma Loureiro, vem sofrendo sérios problemas em sua estrutura física, bem como a falta de vários profissionais de saúde. A prefeitura está transferindo trabalhadores de lugar, deslocando profissionais que trabalham no local há mais de 10 anos e já criaram uma referência na comunidade. Em resposta, a comunidade aliada aos próprios trabalhadores da Unidade vem organizando uma série de mobilizações para pressionar a Secretaria de Saúde de Maceió a dar solução ao problema. Uma bela demonstração de ação direta popular. Todo apoio a essa luta, na qual a Resistência Popular de Alagoas se fez presente junto com o Fórum em Defesa do SUS, que está organizando apoio às mobilizações.



Junte-se nesta luta, o posto é nosso, o SUS é nosso!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Zona Sul - O que cultivar?


Construção para a visita do Papa, em 1991, passou mais de 20 anos abandonada.
Estrutura poderia ter sido utilizada para incentivar a cultura na beira da lagoa.



Mesmo o pão, um dia foi trigo. Boa parte dos alimentos, para chegar às mesas, precisa de um “terreno”, de um pedaço de terra para ser cultivado. E belas flores ou bons frutos podem ser cultivados mesmo em espaços inesperados. Quantas culturas ou quantos tipos de manifestações culturais diferentes (e divergentes) podem ser encontradas na Zona Sul? Um pouco de atenção, pesquisa e seriedade já são suficientes para perceber o quanto de produção cultural é realizada nestes bairros de Maceió.

Porém, assim como o pão, a cultura popular também precisa de mais do que apenas as mãos daqueles e daquelas que a plantam. Ou seja, a farta produção cultural nessa área já é uma cultura de resistência, tendo em vista a existência (e sobrevivência) mesmo, praticamente, sem incentivo e tendo que, constantemente, “remar contra a correnteza”. Quando falamos em incentivos, não se trata de “mesada para a cultura”, e sim, de direito! Por exemplo, Lei de Incentivo a Cultura, Leis específicas para cultura de periferia e para a periferia (como existe em alguns outros Estados), criação de espaços de cultura e lazer nas periferias etc. Quando, na verdade, o que vemos é justamente o contrário: ausência e abandono – como, por exemplo, o palco construído à margem da Lagoa Mundaú, no Dique Estrada, que poderia ser um espaço constante de apresentações artísticas, lazer e produção de arte.

Quando se trata desse assunto, uma fala bastante repetida é: “o governo faz, mas o povo quebra, estraga”. Deve-se perceber que educação não é apenas um processo formal. Ou seja, educação não é apenas “coisa de colégio”. É um processo que se inicia desde a família até à convivência nas ruas. Compreendendo essa continuidade, compreende-se a necessidade da continuidade de espaços e ações culturais nas periferias. Assim como a educação não se acaba quando o indivíduo acaba o ensino médio (ou superior), não basta a construção de espaços de cultura e lazer; estes também precisam ser contínuos, vivos.

Porém, não é isso que vemos do lado de cá. Enquanto em bairros ‘considerados nobres’, avenidas são fechadas aos domingos para que suas crianças possam brincar com tranquilidade e segurança, nas periferias, nossas crianças perdem os poucos e improvisados espaços de lazer – como ‘o campinho’ na Praça dos Pobres, onde hoje está situado um posto policial. Será que o Estado não poderia comprar ou alugar uma casa para ser instalado esse posto? Tinha que ser justamente num espaço onde a molecada jogava bola? Lembrando também do abandono dos brinquedos que – faz muito tempo – não recebem manutenção (aqueles que ainda existem) seja na Praça do Cruzeiro, na Praça Santa Tereza, o cuscuz da Praça da Faculdade etc...

          
Posto que foi construído no lugar do ‘campinho’
onde as crianças jogavam bola

Pobreza gera violência?

Outra argumentação bastante difundida é em relação à violência – o Vergel é considerado um dos bairros mais violentos da cidade. Será que não pode ser feita nenhuma relação entre tudo que já foi dito neste breve texto (ausência e abandono de espaços de cultura e lazer) com o aumento dos índices de criminalidade, principalmente, envolvendo jovens e crianças nesta região? Criminalização da pobreza e incentivo à cultura do medo além de serem lucrativas para uma minoria, mantem o silêncio da maioria. E silêncio é uma das coisas que os exploradores mais querem.

Como já dito, a Zona Sul de Maceió é uma região de uma farta produção cultural - artesanatos diversos; bumba-meu-boi; música; literatura; grupos de capoeira, de dança, de teatro... Apenas para citar alguns exemplos. Nesta região você pode encontrar jovens dançando break, às margens da Lagoa Mundaú, tendo como plano de fundo um pôr do sol belíssimo, que ilumina às águas onde estão os pescadores, que mais do que peixes, pescam sua sobrevivência e dignidade. Apesar de todas as dificuldades, encontram-se aqui poetas, cordelistas, escritores com livros lançados. Músicos e bandas dos mais diversos matizes musicais e com trabalho divulgado nacionalmente. Os detalhes dos exemplos não caberiam apenas neste texto. Entretanto, qual a imagem que é divulgada dessa região: violência, crime, mortes - uma rápida pesquisa num site de buscas mostrará o contraste.

Mesmo com todo descaso, a comunidade 
continua produzindo cultura de qualidade.
Como o Boi Alegria que é associado ao Núcleo 
Cultural da Zona Sul


Portanto, não é a pobreza que gera a violência, mas a desigualdade, sim. A violência cometida com caneta, por homens que usam terno e gravata, que provoca mortes devido ao desvio de verbas destinadas à saúde pública ou a fome de crianças que encontram na merenda escolar um importante motivo para irem às escolas ou o descaso em relação aos espaços de cultura e lazer nas periferias, que poderiam acolher jovens e crianças de modo bem mais atrativo que o crime, é “menos violência”? E a desigualdade, embora possa ter como o peso maior a economia, não é apenas econômica. A cultura que é produzida em ateliês e oficinas nos “bairros nobres” ou a cultura que é produzida pelos acadêmicos nas universidades é “mais cultura” que as produzidas no chão de terra batida, nos fundos de quintais ou ao ar livre nas praças das periferias?

Agora resta escolhermos o que queremos cultivar.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

VI Mostra da Resistência: CONSCIÊNCIA NEGRA

A Resistência Popular/Alagoas, desde 2008, realiza atividades temáticas em memória ao dia da Consciência Negra (20 de Novembro, data do assassinato de Zumbi dos Palmares) e esse ano não poderia ser diferente. Contaremos com quatro datas: 07, 13, 23 e 30 de novembro. Convidamos todos os interessados a somar-se a esta comemoração, não como festa, mas como memória e luta por novos sonhos de justiça e igualdade, nos apoiando na História do Quilombo da liberdade, Quilombo dos Palmares!

“Palmares é símbolo da resistência de um povo. Hoje a escravidão foi “oficialmente abolida”, mas a grande maioria da população ainda é explorada pela elite dominante. Alguns de forma mais brutal outros de maneiras mais disfarçadas, mas ambos fazendo parte de um mesmo povo.
Alagoas é conhecida como a terra dos pistoleiros, a terra dos taturanas, a terra dos usineiros e um dos últimos redutos dos coronéis. Essa Alagoas é bem conhecida e divulgada na grande mídia, mas a Alagoas que queremos mostrar é a Alagoas da resistência de Palmares e da luta de um povo por sua libertação. Que a lembrança desse grandioso fato histórico inspire nosso povo a fazer como os negros e negras de Palmares. Ultrapassar a humilhação que nos envolve e abraçar a causa de um ideal libertador.”
(Resistência Popular, novembro de 2008)



CASA DA RESISTÊNCIA: COMO CHEGAR?

MAPA
http://goo.gl/maps/P9Cye

É bem simples de chegar, pra quem vem de fora, mas já conhece o bairro é saltar no ponto após a Praça Santa Tereza e entrar na rua em frente ao ponto do Colégio Rui Palmeira.

Pra quem ainda não conhece, passam aqui as linhas:

> No ponto do Rui Palmeira: Pontal-UFAL, Trapiche-UFAL, Mirante-Vergel, Jacarecica-Vergel, Vergel-Jatiúca, Ponta Verde-Vergel (Avenida ou Santo Eduardo), J Leão - Ponta Verde.

> Na rua da sede: Henrique Equelman-Vergel (Passa por trás da principal, descer após a Cabo Reis e voltar até o Mercadinho Omena).

> No ponto da Santa Tereza (e seguir andando até o Rui Palmeira, na mesma rua): Clima Bom-Trapiche, João Sampaio - Trapiche, Pontal-Rodoviária, Cruz das Almas-Trapiche, Circular 2.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Assistência Estudantil


Introdução:

   Para devidamente começarmos a discussão sobre assistência estudantil é preciso que entendamos a educação e os seus méritos como patrimônio de toda a sociedade, somente assim poderemos avançar na nossa empreitada. É, portanto, nessa base que encontraremos as condições necessárias para definir e investigar as condições da assistência estudantil no Brasil, mais especificamente em Alagoas.
Admitindo os pressupostos anteriores sobre o patrimônio social devemos, assim, encaixar a universidade e seu papel dentro desta sociedade. Entende-se, então, a partir da sua natureza, que a universidade tem como principal papel: gerar, sistematizar e socializar o conhecimento e o saber, formando profissionais e “cidadãos” capazes de contribuir para o projeto de uma sociedade justa e igualitária. Sem essa admissão justificaríamos práticas e políticas que serão posteriormente rechaçadas e refutadas, portanto faz-se necessário ter esse papel em mente.

   A universidade, fazendo parte da própria sociedade, também é uma expressão dela abrigando também suas contradições; mas ela se constitui como uma instituição no qual essas contradições devem ser combatidas, dado seu caráter formador e produtor de novos conhecimentos e socializador destes, no qual teoricamente superariam os antagonismos que as assolam.

Tendo isso em vista a redução das desigualdades socioeconômicas faz parte do processo de democratização da universidade e da própria sociedade. Torna-se necessária a criação de mecanismos que valorizem a entrada, permanência e conclusão de cursos dos que optam por nela ingressar, reduzindo assim os efeitos das desigualdades.

* As dificuldades de vida que causam o não prosseguimento dos estudantes na academia, contribuem para evasão e a defasagem.

* A não definição de recursos e políticas para a manutenção de projetos de assistência estudantil que busquem criar condições objetivas de permanência desse segmento da população na universidade faz com que esses “estudantes”, muitas vezes, retardem e até desistam de seus cursos.

   Objetivamente, a sociedade, na nossa concepção, é dividida em classes, consequentemente, enquanto for assim, transpassará a desigualdade por todos os âmbitos sociais. A universidade, se entendida como um direito de todos, reflete essas disparidades e, algumas vezes, a tonifica (com mais tempo exigido dos estudantes, mais produtividade acadêmica, maior convívio com diferenças, etc...), atenuando a situação de quem possui menos poder aquisitivo e não dispõe de recursos (físicos, materiais e intelectuais) para garantir uma boa formação. Em outras palavras a universidade se abre para o estudante, mas se fecha para garantir as condições a qual ele precisaria para se formar, superficialisando a primeira abertura, acarretando em uma série de transtornos. Por isso é tão importante garantir as necessidades básicas para a população
trabalhadora em geral e dos estudantes especificamente, tal como: moradia, alimentação, transportes, apoio acadêmico entre outras.


Leis:

A constituição federal de 1988 consagra a educação como dever do estado e da família e tem como princípio a igualdade de condições de acesso e permanência na escola.

* Artigo 3º LDB (Lei de Diretrizes e Bases): “O ensino deverá ser ministrado com base nos seguintes princípios: 1- Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola” 2- A educação deve englobar os processos formativos e que o ensino será ministrado com base no princípio da vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.

   A garantia por lei não só não garante seu cumprimento como, também, abre espaços para [más] interpretações no que tange a assistência estudantil, o que abre pretextos teóricos para implantação de políticas transvestidas de “assistências” que, no fim das contas, não progridem efetivamente a educação no país. O Reuni é um exemplo claro disso, em seu decreto de abril de 2007 no artigo primeiro diz que esse “tem por objetivo criar condições para a ampliação do acesso e da permanência na educação superior”. E diz mais “o Programa terá as seguintes diretrizes, entre outras, ampliação de políticas de inclusão e de assistência estudantil”. Porém o que se vê na prática é uma inchação na entrada de estudantes nas universidades e poucas (quase nenhuma) melhorias nas condições objetivas que contribuem para a formação destes.

   Os princípios como colocados acima levam-nos a refletir sobre as práticas institucionais levando como norte dois fatores latentes ao falarmos da finalidade de tais leis e programas:

*Dignidade humana.

*Ações transformadoras no desenvolvimento do trabalho social com seus integrantes.


Socialização:

Dando atenção especificamente para o segundo ponto devemos entender a assistência estudantil considerada nos planos para uma melhoria das condições de comprometimento social e de sua transformação. E somente garantindo o conhecimento e estendendo-o para a sociedade/comunidade que permearemos pelas três dimensões do fazer acadêmico (Gerar, Sistematizar e Socializar o conhecimento), viabilizar a relação universidade/comunidade. Para, assim, inseri-la na práxis acadêmica, entendendo-a como um direito social e rompendo com a ideologia tutelar do assistencialismo, da doação, do favor e das concessões do estado.

* A discussão do direito social, no Brasil, acaba prejudicada pela ideologia tutelar que vê a assistência estudantil, ou qualquer outra, como um jogo de favores e doações do estado, que é incorporada até pelas classes mais desfavorecidas, e no nosso caso, pelos estudantes, empobrecendo a finalidade e a importância da assistência para o estudante.

   Para cumprir seu papel social o estudante precisa de livros, equipamentos de aprendizagem prática, acesso à informação, participação em eventos acadêmicos e culturais. Outro aspecto como a inclusão digital, tendo em vista a importância da informática para a facilitação de pesquisas e estudos, se encaixa no quadro assistencial. E somente tendo essas condições será possível que a universidade avance ao terceiro item de sua dimensão, dando assim o valor devido a comunidade na qual ela está inserida, e não vendendo-se ao empresariado que financia pesquisas e cursos para produzir novos conhecimentos que beneficiem o lucro de suas empresas e, consequentemente, a contribuição da exploração da força de trabalho (como a situação de alguns cursos da UFAL que são financiados pela máfia sucroalcooleira produzindo pesquisas que desenvolvam formas de aumentar a lucratividade e esquecendo de toda uma comunidade que vive a mercê da força desses poderosos que controlam o estado de alagoas) afastando assim a universidade da comunidade.

   Por isso a importância de desenvolver o debate claro sobre o papel da universidade e do estudante dentro dela, para que possamos saber bem o que cobrar do poder e para que conheçamos e ganhemos forças para mudarmos nós mesmos o quadro lamentável em que nos encontramos.

Fatores de atuação:

A assistência estudantil perpassa uma série de fatores da vida do estudante, entre eles estão:

* Moradia/Migração: A variável localidade de moradia dos estudantes ao ingressarem na universidade é um importante indicador de qualidade de vida. Milhares de estudantes deslocam-se dos seus locais de moradia e contexto familiar para ingressarem na universidade, necessitando, portanto, do apoio efetivo da universidade. (Denunciamos a total precariedade em que se encontra as residências estudantis; o descaso com os estudantes, muitas vezes vindos de outras cidades, e até estados, demonstra a indiferença do poder para com a situação de suma importância que é a moradia estudantil).


* Alimentação: A importância da alimentação é primária para um bom desempenho acadêmico. É necessário ampliar e manter o apoio à alimentação dos estudantes, otimizando assim o seu tempo de vida acadêmica. (O descaso com a situação do R.U.(restaurante universitário) aparece de cara nas condições dos horários de pico alimentar, sem falar nos altos preços em alguns).


* Manutenção e Trabalho: Muitos estudantes precisam fazer a dupla jornada para se manterem estudando na universidade, e acabam tendo, algumas vezes, que abandonar os estudos, por isso há uma forte tendência dos estudantes de buscarem formas de se manterem dentro da universidade. A baixa oferta de programas acadêmicos remunerados acaba não suprindo essa necessidade e, principalmente com a bolsa trabalho, fazem o papel inverso aumentando a indisponibilidade de tempo dos estudantes inserindo-os em cargos de trabalho que deveriam ser preenchidos por técnicos.


* Meios de Transporte: A locomoção é um fator primordial para a manutenção do esporte na universidade. E, ao contrário do que é propagado, é papel do governo garantir que esse direito se valha. (Os aumentos abusivos das passagens aliados à uma gestão que visa o lucro do empresariado, e não as necessidades da população, tem se configurado como uma prática corriqueira no estado, por isso é preciso entender que o transporte, apesar de ser uma pauta mais universal, também se insere na reinvindicação da assistência estudantil).


* Saúde: O estudante também tem direitos relacionados a saúde (consulta no H.U. entre outros) porém a saúde é um tema muito mais amplo e universal e tem problemas gritantes que assolam toda a sociedade brasileira, milhões de pessoas morrem por ano numa fila de hospital, ou pelo descaso do atendimento e até pela falta de aparatos certos atendimentos. (toda essa constatação transpassa a voluntária precarização que o governo vem fazendo na saúde, se omitindo da gestão e usando desse discurso para implantar uma política de privatização que visariam entregar a saúde, que é um direito, nas mãos do empresariado, como acontece com o projeto EB$ERH).


* Acesso a Biblioteca: É preciso atentarmos para não somente termos uma biblioteca, mas para as condições na qual ela funciona, sua capacidade e horários de funcionamento, e até a ampliação do seu acervo.


* Acesso a cultura, lazer e esporte: É direito também termos programas de acesso e de investimentos em áreas de atuação cultural e social, levando para a comunidade acadêmica uma universidade pulsante e viva, com maior sociabilização.


* Movimento Social: É garantido por lei, também, a liberdade de organização dos estudantes e docentes e sua inserção nas cobranças e tomadas de decisões no que tange suas universidades, e as próprias universidades devem oferecer condições para tal. Portanto ao organizarmo-nos não estamos infligindo nenhum tipo de lei fascista e totalitária que poderia calar-nos.


* Creche: É necessário que as mães e país tenham um lugar seguro para abrigar seus filhos enquanto estudam, muitos deles não possuem condições para deixa-los com outras pessoas e até
pagar uma babá, o que leva também a defasagem e a desistência de muitos, daí a necessidade de uma boa creche, que não só mantenha as crianças mas que as sociabilizem e eduquem também.


* Portadores de Deficiência: Para esse ponto devemos ter um olhar mais minucioso e uma atenção maior. As políticas de inclusão para essa parcela da população não acontece de maneira efetiva, é preciso que haja investimentos em políticas que levem em conta essas diferenças e necessidades, que melhorem a acessibilidade em todos os fatores citados acima. A defasagem dessa parcela da população é muito maior e se veem condenados à uma vida de ostracismo quando não disponibilizam de recursos para se inserir na sociedade.


Conclusão:

Devemos portanto enxergar nosso papel dentro da universidade para que possamos estar criticamente inseridos nos processos de decisões, a importância da nossa organização para a sociedade em geral, e a universidade em particular, é primordial se queremos uma mudança efetiva dos quadros atuais de degradação da educação. Partindo da maior participação da população e de melhores debates sobre os temas abordados devemos nos centrar em como poderemos ter maior controle coletivo para que possamos juntos atenuar o papel da universidade na comunidade, por uma sociedade que deseja superar suas contradições e desigualdades a partir do conhecimento dos seus processos.